Carta de Gratidão – 19/01/2026

Data

19/01/2026

Hora

18:10

Tópicos do que sou grato hoje

  • Sair da cama.

  • As calçadas quebradas.

  • Gastar com dentista e academia.

  • Estar cheio de dívidas.

  • Nome sujo.

  • Ter comida na mesa.

  • Ter um teto sobre minha cabeça.


Carta de Gratidão – Registro do Dia

Hoje, mais uma vez, eu escrevo não para fingir força, mas para reconhecê-la onde quase ninguém vê.

Sou grato por sair da cama. Porque sair da cama não é um gesto simples quando o peso da vida senta ao seu lado logo ao despertar. Há dias em que a cama parece abrigo, refúgio, esconderijo. Hoje, mesmo com o corpo pesado e a mente tentando negociar mais alguns minutos de fuga, eu levantei. Isso não é pouco. Isso é enfrentamento. Isso é escolha.

Sou grato pelas calçadas quebradas. Elas me irritam, me desafiam, me expõem. Cada buraco é um lembrete de que o mundo não foi feito pensando em todos os corpos. Andar nelas exige atenção, esforço, paciência e, muitas vezes, medo de cair. Ainda assim, sou grato porque elas revelam minha capacidade de adaptação. Eu sigo, mesmo tropeçando, mesmo desviando, mesmo desacelerando. As calçadas quebradas não me param — elas me ensinam a caminhar de outro jeito.

Sou grato por gastar com dentista e academia. Porque isso significa que ainda estou investindo em mim, mesmo quando tudo parece indicar que eu deveria desistir. Cuidar dos dentes é cuidar da dignidade. Ir à academia é um ato silencioso de resistência contra a dor, o cansaço e a acomodação. Mesmo endividado, mesmo preocupado, eu escolho cuidar do corpo que me sustenta todos os dias. Isso é amor-próprio em forma de atitude.

Sou grato por estar cheio de dívidas. Não porque elas sejam leves, mas porque elas contam uma história. A história de quem tentou sobreviver, de quem bancou tratamentos, de quem priorizou necessidades reais. Dívida não define caráter. Dívida não mede valor humano. Ela pesa, assusta, tira o sono — mas não apaga quem eu sou. Sou grato porque, apesar delas, eu continuo buscando soluções em vez de me entregar à vergonha.

Sou grato até pelo nome sujo. Porque ele não suja minha essência. Ele não apaga minha honestidade, meu esforço, minha ética. Meu nome pode estar restrito no sistema, mas minha consciência está limpa. Isso ninguém negativou. Isso ninguém toma. E um dia, quando tudo estiver regularizado, essa fase será apenas mais um capítulo vencido.

Sou profundamente grato por ter comida na mesa. Em um mundo onde tantos não têm o básico, cada refeição é um lembrete de que, apesar do caos, algo ainda me sustenta. Comer não é só nutrir o corpo — é reafirmar a vida. É dizer que ainda há continuidade.

Sou grato por ter um teto sobre minha cabeça. Um lugar onde posso descansar, chorar, pensar, respirar sem precisar me defender do mundo. Ter um teto é ter um mínimo de segurança para reorganizar o caos interno. Não é luxo. É base.

Hoje, minha gratidão não vem do excesso. Ela nasce do essencial. Do que permanece quando tudo aperta. Do que ainda existe mesmo quando parece insuficiente.

Eu sigo. Endividado, cansado, às vezes frustrado — mas inteiro. E isso, hoje, basta.

Assino esta carta com humildade e coragem,

Bruno



BRUNO FIGUEIREDO MARTINS
ESCRITOR & PALESTRANTE

Uma história real.
Uma voz que provoca reflexão.
Uma presença que transforma.

Meu nome é Bruno Figueiredo Martins.
E antes de qualquer título, diagnóstico ou rótulo, eu sou alguém que aprendeu cedo demais que a vida não pede permissão para ser difícil.

Nasci com uma síndrome raríssima chamada Acidúria Glutárica Tipo 1 — uma condição que compromete a coordenação motora e altera a fala. Ainda recém-nascido, precisei passar por uma cirurgia delicada para a implantação de uma válvula no cérebro, consequência de uma hidrocefalia. Enquanto muitos davam os primeiros passos, eu já travava minha primeira grande batalha pela vida.

Aos 23 anos, em 2010, tomei uma decisão que poucos teriam coragem de tomar: abrir o cérebro novamente para participar de um tratamento experimental no Hospital das Clínicas, com a implantação do DBS (Deep Brain Stimulation). Não foi impulso. Foi escolha. Foi fé no futuro. Foi acreditar que, mesmo com medo, vale a pena tentar avançar.

Sim, eu sou intenso.

Planejo o amanhã, mas vivo o agora com tudo o que tenho.

Concluí o ensino fundamental e médio, fui aprendiz por um ano sem nenhuma falta, trabalhei seis anos em regime CLT, já morei sozinho em outra cidade, já atravessei estados — saindo de São Paulo para o Rio de Janeiro — e cheguei a dormir na calçada apenas para viver um momento histórico: ver o Papa passar.

Não era fanatismo. Era sede de experiência. Era provar, para mim mesmo, que o mundo não me seria negado.

Cada conquista veio com suor.
Cada passo exigiu luta.
Cada vitória foi construída apesar de tudo — e não porque tudo estava a favor.

Escritor

Hoje, transformo essa trajetória em propósito. Sou escritor, autor de dois livros:

Palestrante

E sou palestrante porque entendi algo fundamental:
👉 histórias reais transformam pessoas reais.

Quando subo ao palco, não levo frases prontas. Levo vivência. Levo cicatrizes. Levo verdade. Falo sobre superação sem romantizar a dor, sobre resiliência sem negar o cansaço, sobre futuro mesmo quando o presente é duro.

Minha missão é clara:
provocar reflexão, despertar coragem e mostrar que ninguém é definido pela limitação que carrega, mas pelas escolhas que faz todos os dias.

Se minha história toca, inspira ou movimenta alguém, então ela já cumpriu seu papel.

É exatamente isso que eu entrego em cada palestra:
humanidade, impacto e transformação real.

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